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  • 04/06

    Dois Toques

     

    Garotos

    Esses dias Paulo Autuori, técnico do Vasco, deu um declaração no mínimo interessante quanto ao fim do futebol de rua. Confiram: “O grande problema do futebol brasileiro foi o fim do futebol de rua. Ele proporcionava desenvolver a habilidade. Tinha calçada, você tinha que levantar bola, aprender a dominar. Você usava a parede para fazer tabela. Outra coisa que desenvolvia: jogos de rivalidade com as outras ruas. E o espírito? Você jogava três, quatro peladas com o dedo arrebentado, desenvolvia espírito de sacrifício. Mais: um jogo era de 12, então você era obrigado a fazer gol. Na pelada de rua, o papai não estava. Hoje, papai vai levar na escolinha. Enquanto o técnico fala uma coisa, ele diz outra. Nas academias, tem garoto de 6 a 12 anos fazendo preparação física. Garoto dessa idade não precisa disso, ele tem energia. Ele precisa é aprender o espírito do jogo, o que ele aprendia na rua.”

     

    De fato a declaração do treinador, que eu jurava ser um ricaço almofadinha, faz total sentido. Uma verdade que todos temos a sensação que já deveria ter sido dita por alguém. A infância é, sem dúvidas, a fase onde nosso espírito se desenvolve. Um adulto nada mais que uma versão lapidada ou avolumada daquilo era quando criança. Quem consegue se esvair daquilo que fez enquanto moleque?

     

    Lembro-me da minha infância maluca, feliz, onde até a sacanagem conseguia ser inocente. Recordo-me dos esconde-esconde nunca rejeitado sob o único pretexto de me esconder e ficar tirando uma casca da vizinha gostosinha, ou dos jogos de bola debaixo de chuva e com minha mãe gritando feito uma louca, jurando que eu ficaria resfriado, das primeiras brigas e distribuição de bicudas, fundamentais para o desenvolvimento e produção de testosterona em massa.

     

    Recordo-me até mesmo do esquadrão de elite que formávamos para roubar maracujás e jabuticabas no sítio de um velho sovina, apegado às coisas materiais, que sempre nos recebia e despachava ao som do ronco de sua espingarda que cuspia sal grosso nas costas das criancinhas. Eram necessárias cerca de cinco blusas grossas de moletom para amenizar o impacto do sal com a pele. Num calor do Saara éramos obrigados a vestir nossa armadura de moletom. Os mais evoluídos iam no pelo mesmo, mas quem sentia a dor arrumava até capacete de motociclista para conseguir uma bolsa de jabuticaba. Era engraçado aquele monte de pivete equipado pra “brincar de Robin Hood”.

     

    Gente, ser criança é um esporte. E quando vejo essa molecada toda internauta e não aproveitando nada da vida, me preocupo com os adultos que se tornarão. Talvez repitam aquele velhaco que na nossa infância rasgava nossas bolas, impedia que subíssemos nas árvores, dava tiro de sal grosso. Vítima de uma primeira-idade perdida.

     

    Pra tudo na vida existe um momento e é demasiadamente nocivo pular fases. Existe uma hora até pra errar. Quando criança é a hora de cometer as maiores gafes, os maiores erros da vida. É uma época onde todo erro é considerado e tem caráter de aprendizado. Deixar pra fazer lambança depois de velho é complicado.

     

    Hoje a informação te busca e o tempo de ser criança foi reduzido. Enquanto nós, aos oito anos, nos aventurávamos suando horrores e tendo colapsos de libido com as páginas de lingerie das revistas AVON, hoje os moleques já tem a iniciação, na prática.

     

    Quanto tempo tu tinha que namorar a gatinha do colégio pra haurir o volume pré-torácico da supracitada? Tu tinha que bancar o Don Juan pra atingir esse estágio – e muitos nem assim conseguiam. Hoje, acredito que conseguir beijar na boca é o desafio. O processo de intimidade já é o inverso. Começa-se do fim.

     

    E enquanto eu fico aqui escrevendo, você lendo e ambos recordando e sentindo falta da infância, tem um moleque sem um pelo sequer na cara marcando mini-orgias, invadindo facebook ou se alienando num jogo de computador com criaturas mágicas qualquer.

     

    Meninos, meninas, voltem a ser criança, pratiquem esse esporte da vida, porque vocês terão tempo de sobra para essas práticas libidinosas. O tempo da sacanagem nunca acaba, já a infância sim.

     

    Dois Toques e a gente sai na cara do gol.

     

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