TOPO
  • 06/02


    Sabe aquelas histórias que começam como apenas mais uma anedota interiorana e que no primeiro minuto já nos perguntamos quando irá acabar? Quando ouvi essa que irei vos contar não consegui pensar assim. A história é a vida de Joaquim Silva, Quinzil para os mais próximos.

     

    Nascido numa pequena cidade do interior do Piauí, Joaquim Silva teve a infância sofrida da maioria das crianças nordestinas da década de 20 e 30. Filho de mãe costureira, nunca conheceu o pai que falecera pouco antes de seu nascimento e a figura masculina que teve ao longo da vida fora seu padrasto, Seu Ernesto, um bom homem, trabalhador, lhe ensinou a profissão de carpinteiro, mas costumava se exaltar na bebida e ficar um pouco agressivo. Embora Joaquim afirme nunca ter sofrido violência física de Ernesto, nem visto sua mãe passar pelo mesmo, sabe-se que os momentos de embriaguez de seu padrasto eram para ser esquecidos. Principalmente pelos maiores momentos de alegria da família que vinham sempre após vitórias do Botafogo carioca. Assim (por força da ocasião), a casa inteira era botafoguense declarada e fazia de tudo para que o rádio nunca parasse de funcionar.

     

    Ernesto era alvi-negro roxo, daqueles que defendiam sua equipe até em bares inimigos, botafoguense ferrenho e costumava presentear seus enteados e filhos com sorvetes, bolas de gude e balas sempre que o Glorioso vencia. É difícil encontrar unanimidade de pensamentos num grupo de 12 irmãos, mas na família Silva uma coisa era unânime. Os anos mais felizes da vida desses nordestinos sem dúvidas foram a sequência de 1932 a 1935 quando o Botafogo foi campeão carioca por quatro vezes consecutivas. Segundo Joaquim sua coleção de gudes, na época, ocupara dois baús de madeira que ele mesmo fazia para venda, forma como ajudava no sustento da família.

     

    No fim da década de 40 os Silvas vieram para o Rio de Janeiro na esperança de uma vida melhor. Joaquim, já com 21 anos maravilhou-se com a cidade maravilhosa, mas não fazia noção de que ali era a casa do tão querido Botafogo até ouvir numa conversa de padaria um cidadão dizer a um amigo que residia no bairro de Botafogo. Joaquim ficou louco com a associação e tão pronto pediu ao padrasto que o levasse ao seu querido Glorioso.

     

    Ernesto também não dormia pensando na proximidade que estava de seu time, mas a falta de verba o impedia de levar 13 pessoas à visita, mas nada que um bom campeonato de sinuca não resolvesse. O já velho nordestino empunhou um taco, chegou a um bar e desafiou todos os cidadãos ali presentes que em caso de uma derrota apenas, ele daria tudo o que tinha no bolso, mas se vencesse todos queria 13 ingressos para o Botafogo e Vasco do domingo seguinte. Mal sabiam os desafiantes que Ernesto não trazia uma única moeda, mas como exímio jogador de sinuca que era tinha ciência do que estava fazendo. E ao fim da noite chega o homem em casa com um grande sorriso e gritando “Domingo tem Botafogo minha gente!”.

     

    O dia mais feliz do ano demorou a chegar, a ansiedade tomava conta, os garotos pareciam pilhados e enfim pela primeira vez pisaram num estádio de futebol. Assistiram Botafogo e Vasco pela final do carioca de 1948 em General Severiano. Viram seu time ser campeão vencendo o apelidado Expresso da Vitória Vascaíno por 3 a 1 e Nilton Santos conquistar seu primeiro título.

     

    O ano se passou, Joaquim se tornara o mais assíduo frequentador de estádio daquelas bandas, Ernesto já não era mais vivo, mas o ofício que ele o ensinara o ajudava agora a ganhar a vida. Fazendo placas, bonecos e escudos de time na madeira, Quinzil fazia dinheiro suficiente para comer, viver e ir ao estádio.

     

    Mas algo faltava. Desde o início do Campeonato Brasileiro todos os cariocas já haviam vencido, menos o Botafogo de Quinzil. Aquilo não era admissível. Como o Botafogo, principal clube brasileiro na formação de seleções para as Copas poderia viver aquele momento? Não dava para acreditar.

     

    No início do Nacional de 1995 Quinzil acreditava que agora poderia ser a vez. Já com 67 anos e um pouco debilitado, ele dizia aos quatro cantos que veria seu Glorioso campeão brasileiro no dia 17 de dezembro daquele ano (dia do jogo final), mas ele não contava com as presepadas da vida e voltando de uma viagem de carro acidentou-se gravemente e entrou em coma. Amigos, familiares, filhos, ninguém acreditava. Justo na melhor sequência em anos do Botafogo, Quinzil se acidentara. As economias eram poucas, senão o suficiente para pagar alguns meses na cara UTI de um hospital carioca.

     

    O ano chegava ao fim, o dinheiro acabava, o coma era interminável e alguns já cogitavam a hipótese de desligar os aparelhos e evitar o sofrimento, mas um de seus irmãos deixou claro “Só desliguem após o Botafogo ser campeão. Ele tem que estar vivo nesse momento.” Todos concordaram.

     

    17 de dezembro de 1995. O dia do polêmico Santos e Botafogo pela final do Brasileiro. A família de Joaquim estava reunida em frente à TV, afinal era isso que Quinzil faria. O jogo nem preciso comentar, sofrimento do início ao fim. Ao término da partida não dava para comemorar por muito tempo, era chegada a hora de ir ao hospital e por fim a dor de um grande trabalhador. A decisão era difícil, mas não havia nada que fazer.

     

    Os médicos se dirigem ao lugar onde Joaquim estava, olham para a grande figura botafoguense naquela situação, dão um suspiro e caminham em direção ao aparelho. Quando ouvem um grito desesperado “E o Botafogo, é o campeão?”. A junta se estremeceu. “Responde, é ou não?”.

     

    Ninguém acreditava. Como ele acordara, por quê, e como sabia a data? Muitas perguntas, um assombro e uma felicidade. Quinzil estava vivo e ainda teve tempo de reconhecer um dos médicos, companheiro de boemia para sacanear – o médico era flamenguista.

     

    A família quase não acreditou, pensou ser piada ou espasmo do velho Quinzil, mas não. O cara estava vivo e muito vivo.

     

    Dali Quinzil saiu, seguiu sua vida, comemorou horrores o campeonato vencido pelo Botafogo, tomou o maior porre do eixo Rio-Piauí, continuou carpinteiro e botafoguense. Hoje o velho já soma 84 anos bem vividos e diz ao mundo que deve a vida ao Botafogo. Na verdade existem três versões finais dessa história. A dos médicos, a dos familiares e a do Quinzil. Pra mim, bastou a versão do Quinzil.

     

    Dois Toques e a gente sai na cara do gol!

     

    Não deixem de curtir minha página, o Flagaiato, nem de deixar suas mensagens, críticas e xingamentos (que não sejam dirigidos à minha mamaezita) no email [email protected]. Aproveitem e sigam @flagaiato no twitter.

    tags: , , , , , ,

    Leia também:
  • Comentários

    Veja posts legais de outros blogs