TOPO
  • 17/12

    Dois Toques

     

    Futebol das antigas

    Essa semana despediu-se o último exemplar do boleiro brasileiro nato oriundo das peladas que precediam longas e boas conversas sobre o frango tomado, o golaço marcado e caneta rolada.

     

    Marcos foi mais que um goleiro campeão do mundo e exímio defensor de pênaltis. Marcos foi o futebol brasileiro personificado entre os três paus que defendia. Falava, tomava café, ria dos próprios erros, soltava pérolas, era sem noção. O último remanescente de um tempo onde todo juiz era ladrão, o adversário era viado e mãe do árbitro era objeto sexual.

     

    Sim, as coisas ainda são assim, mas não podemos falar. É errado, é imoral e para no STJD.

     

    Marcos assistirá, agora da poltrona, o futebol se reelitizar e tornar às suas fétidas origens onde o povo não tinha vez.

     

    Nas peneiras já não passam os Romários. Playboys rumam ao domínio de nossas bases de futebol. Não precisam que você drible, chapele, chute e saiba cruzar. Tendo dinheiro, te encorparemos e te venderemos para ser um mero lateral meia-bomba do outro lado Atlântico endeusado pela mídia, pelo PES e pelo FIFA.

     

    Nossa forma de torcer já mudou e após a Copa estará irreconhecível. Em 2015 nossos recantos de felicidade e nostalgia dos bons tempos serão Raulinos e Moisés Lucarellis Brasil a fora, onde a acústica permite cantar, baterias poderão entrar e você trabalhador assalariado não ficará a km de distância de seu time por ter apenas cinquenta reais para desembolsar.

     

    Quem pisou no Maracanã e depois foi obrigado a torcer no Engenhão sabe do que falo. Estádios no estilo europeu tem a acústica e a emoção de uma caixa de geladeira.

     

    Eles conseguiram. Acabaram com o nosso futebol engordando as cifras deles. O golpe perfeito. Nos fizeram amar atacante trombador como o Hulk e agourar habilidosos como Neymar. Nos tiraram o senso crítico. Fulano no Brasil quando marca 30 gols num campeonato disputadíssimo é ruim. Mais vale marcar 90 onde só tem dois times. Estar no Brasil sinônima ser abaixo da média e por isso dispensável.

     

    Nos argentinaram. Nossos moleques catimbam, fazem cera, acham legal retardar o jogo. Driblou? Dá porrada. Passou por três? Do quarto não passa.

     

    Quanto mais próximo do que é da Terra, pior. Quem é Cristiano Ronaldo e seus dribles, passes e chutes? Somos mais o Messi que só recebe bola na cara do gol e o máximo de esforço que faz é dominar antes de chutar.

     

    Marcos se foi, assim como Ronaldo, Cafú, Roberto Carlos e Túlio (sim, ele já foi e não reconheceu) também já se foram. Eu reclamava do Edmundo, o achava chato, brigão, mas sinto saudade. Saudade dos tempos onde ao fim do jogo “Estou feliz. Ganhamos dessa merda” não era nada mais que uma provocação. A geração “Perdemos, mas vamos tentar corrigir nossos erros. A equipe continua unida” jamais saberá o que é uma resposta livre dos dedos do departamento de marketing.

     

    Que pena! Pois não saberão nem mesmo o que é o futebol. Logo os loirinhos de apartamento ganham os gramados, passamos mais 20 anos sem ganhar uma Copa do Mundo e tudo que nos restará será torcer por um atleta do judô, da natação… Ainda bem que nosso vôlei está aí.

     

    Dois Toques a gente sai na cara do gol.

     

     

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