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  • 31/10

    Os mitos da saúde que você deve ignorar

     

    Quem vê as capas de revistas de comportamento, no Brasil e lá fora, percebe que os estilos de vida sadios são uma obsessão coletiva. Alguns desses truques, de tão repetidos, viraram verdades para grande parte da população. Qual ser humano nunca ouviu — por vezes até de médicos — que é necessário beber dois litros de água ao dia? O mesmo vale para a gordura. Parece consenso que os temidos pneuzinhos são inimigos da vida longa e próspera.

     

    A boa nova é que uma parte disso parece ser papo furado. Ao investigar os mais falados lemas dos saudáveis, fica claro que faltam evidências científicas para pelo menos seis deles. É o caso da difundida teoria de que devemos nos portar como homens das cavernas, já que teríamos sido concebidos para caçar e colher em vez de ficarmos sentadões no sofá. Na verdade, diz a ciência, nem mesmo os ancestrais se sentiam adaptados. Mais detalhes desse e dos outros mitos a seguir. A lição que fica é uma só: desconfie do óbvio.

     

    MITO 01: BEBA 2 LITROS DE ÁGUA POR DIA
    É o mito que persiste. Quase todo mundo acha que não bebe o suficiente, mas a ideia de que devemos ingerir muita água não tem embasamento científico.

     

    Água

     

    Ninguém sabe ao certo de onde veio a ideia dos dois litros diários — ou, entre os americanos, dos oito copos. Alguns dizem que é culpa da indústria da água engarrafada, mas muitos médicos e organizações de saúde promovem tal ideia há décadas.

     

    Ela pode ter surgido em 1945, quando o Conselho Nacional de Pesquisa dos EUA recomendou que adultos deveriam consumir 1 mililitro de água para cada caloria de alimento consumido, o que se aproxima de 2,5 litros por dia para homens e 2 litros para mulheres.

     

    De acordo com Barbara Rolls, nutricionista e pesquisadora da Penn StateUniversity e autora do livro Thirst (Sede), de 1984, esta é a quantidade ideal a ser ingerida por pessoas que vivem em região de clima temperado, como o centro-oeste dos Estados Unidos, e que não se exercitam intensamente — se seguir a regra americana de ingerir 8 copos dos mais comuns, de cerca de 240 ml, a quantidade consumida seria de 1,9 litro.

     

    No entanto, o que a maioria das pessoas não percebe é que boa parte dessa água é ingerida por meio da nossa comida. Alimentos contêm água e são decompostos quimicamente em dióxido de carbono e mais água. Assim, a menos que tenha suado baldes, você precisa apenas de um litro por dia — ou quatro copos da medida americana.

     

    Mas essa conversa de copos é enganosa, já que não é preciso beber água pura. Os líquidos que ingerimos, incluindo café e chá, podem nos fornecer toda a água de que precisamos, diz Heinz Valtin, um especialista em rins da Escola de Medicina Dartmouth em Lebanon, New Hampshire, que analisou diversas evidências científicas.

     

    De acordo com o mito, bebidas que contêm cafeína não contam, pois são diuréticas, estimulando o corpo a perder mais água do que a própria bebida fornece. Não é verdade. Uma comparação entre adultos saudáveis publicada em 2000, no Journalofthe American CollegeofNutrition, não encontrou diferenças em termos de hidratação entre aqueles que ingeriram água por meio de bebidas com cafeína ou sem cafeína. Até mesmo uma ou duas bebidas de teor alcoólico moderado podem hidratar em vez de desidratar.

     

    Hidrófilos respondem dizendo que água pura é melhor que outras bebidas. Tal afirmação é discutível, mas o ponto fundamental é que se você é um indivíduo saudável que já bebe uma quantidade suficiente de suco ou o que quer que seja, não há evidência de que mandar água para dentro vai ajudá-lo a alcançar outra coisa além de idas ao banheiro.

     

    O último aspecto do mito é que precisamos nos forçar a beber água, pois quando estamos com sede é sinal de que já estamos bem desidratados. Só que não. Rolls mostrou há cerca de 30 anos que sentimos sede muito antes de que haja perda significativa de líquidos corporais — a desidratação é identificada quando a concentração do sangue é de 5%; quando estamos sedentos, o nível se eleva a menos de 2%.

     

    Relaxe e confie no seu corpo. Não se force a beber galões de água se não está com vontade — isto pode ser perigoso — e beba apenas o que preferir quando sentir sede.

     

    MITO 02: AÇÚCAR CAUSA HIPERATIVIDADE EM CRIANÇAS

     

    Chocolate

     

    Todos os pais conhecem a receita: pegue um grupo de crianças pequenas, adicione doces e o resultado é corre-corre para todo lado.

     

    Muitos terão dificuldade em acreditar, mas o fato é que o açúcar não causa hiperatividade.

     

    Uma análise de 12 estudos cegos realizados em 1996, em que os participantes não sabiam quais crianças tinham ingerido açúcar e quais tinham ingerido placebo, não encontrou evidências que apoiassem a teoria.

     

    Mais: um desses estudos concluiu que o efeito do açúcar está na cabeça dos pais. Crianças entre 5 e 7 anos “sensíveis ao açúcar” e seus responsáveis foram divididos em dois grupos. Em um deles, foi dito aos pais que suas crianças haviam ingerido grande quantidade de açúcar; no outro, que os filhos haviam tomado placebo. Na realidade, todos os pequenos haviam ingerido alimentos sem açúcar. Mas quando os pais observaram seus filhos brincando logo em seguida, aqueles que achavam que seus filhos haviam comido doce se mostraram mais propensos a rotular as crianças como hiperativas.

     

    A bem dizer, pesquisas mostram que o açúcar afeta o cérebro das crianças de forma positiva. O psicólogo David Benton, da Swansea University, na Inglaterra, descobriu que cerca de 30 minutos depois de beber uma solução de glicose, crianças entre 9 e 11 anos conseguiram se concentrar melhor em seus afazeres e tiraram notas maiores em testes de memória. É o oposto de hiperatividade, que tem como característica a inabilidade de concentração.

     

    Mas não comece a encher seus filhos de bebidas açucaradas — o estímulo na performance não dura muito tempo. Refeições sem açúcar, que ajudam o corpo a manter um nível constante de glicose no cérebro, são a melhor opção para as crianças. “Provisão de energia vai claramente aumentar a possibilidade de gasto”, diz Andrew Scholey, que estuda glicose e melhora cognitiva na SwinburneUniversity em Melbourne, Austrália.

     

    Talvez o que pais veem como hiperatividade seja apenas crianças superconcentradas em se divertir.

     

    MITO 03: PÍLULAS DE ANTIOXIDANTES FAZEM VOCÊ VIVER MAIS
    Parece óbvio. Ao metabolizar os alimentos que comemos, nossas células produzem moléculas nocivas chamadas de radicais livres que causam muitos estragos. Ao longo de uma vida, o dano se acumula e pode provocar diversos tipos de doenças degenerativas. Para nossa sorte, muitas substâncias atuam como antioxidantes e expulsam os radicais livres. Além disso, comer verduras ricas em antioxidantes parece reduzir os riscos de doenças degenerativas. Então, ora, tomar pílulas cheias de antioxidantes pode ajudar a afastar tais doenças também, certo?

     

    É exatamente isso que alguns cientistas começaram a pensar a partir dos anos 1970. O ganhador do prêmio Nobel de química, Linus Pauling, incentivou com entusiasmo o uso de altas doses de vitaminas sem esperar evidências científicas. O público entrou na onda e uma indústria inteira surgiu para atender à demanda.

     

    Depois, nos anos 1990, os resultados de testes rigorosos dos suplementos mais populares, tais como betacaroteno, vitaminas E e C, começaram a aparecer. Estudos após estudos mostraram que, mesmo que tais substâncias funcionem como antioxidantes nos tubos de ensaio, tomar pílulas não trazia benefício algum.

     

    Pelo contrário, alguns estudos sugerem que elas podem ser nocivas. Uma revisão feita em 2007 de quase 70 testes envolvendo 230 mil pessoas concluiu que os antioxidantes não melhoraram a expectativa de vida e que suplementos de betacaroteno e vitaminas A e E aumentaram a mortalidade. O estudo está no respeitado Journalofthe American Medical Association.

     

    A que se deve isso? Uma hipótese é a de que altos níveis de radicais livres dizem às células para aumentar a sua própria produção de defesa contra antioxidantes, diz Barry Halliwell, um bioquímico da Universidade Nacional de Cingapura. Ele acredita que essas defesas internas são muito mais eficazes que os antioxidantes que ingerimos por alimentos.

     

    Assim, ao tomar suplementos, podemos estar desativando um mecanismo de defesa de primeira linha e substituindo por outro muito inferior. “Radicais livres em pouca quantidade também desempenham funções importantes”, diz Halliwell.

     

    Se isso estiver correto, os benefícios dos vegetais não teriam nada a ver com antioxidantes. Um palpite é que os vegetais são benéficos porque eles são levemente venenosos — um pouquinho de veneno pode ativar mecanismos de proteção que afastam doenças.

     

    Enquanto isso, a moda dos antioxidantes continua. Ninguém parece querer abandonar a ideia de que tais suplementos fazem bem à saúde.

     

    MITO 04: ALGUNS QUILINHOS A MAIS SIGNIFICAM ANOS DE VIDA A MENOS

     

    Balança

     

    Sejamos bem claros — ser muito obeso faz mal à saúde. Um índice de massa corpórea acima de 40 aumenta o risco de diabetes tipo 2, doenças do coração e certos tipos de câncer, além de aumentar em 29% o risco de morte por qualquer outra causa. Isso não é um mito.

     

    Mas ter uns quilinhos a mais, longe de encurtar a vida, pode até ajudar a tirar o pé da cova, de acordo com uma análise recente de quase cem estudos envolvendo cerca de 3 milhões de pessoas. A análise, coordenada por Katherine Flegaldo US Centers for DiseaseControl em Hyattsville, Maryland, concluiu este ano que estar acima do peso — definido como tendo um índice de massa corporal (IMC) entre 25 e 29 — parece atuar como uma proteção, reduzindo em 6% o risco de morte se comparada a pessoas com IMC entre 18,5 e 25. Aqueles com IMC acima de 35, no entanto, têm um risco maior.

     

    Não fica claro por que estar acima do peso pode prevenir uma morte prematura. Talvez ter uns quilinhos de reserva ajude o corpo a combater doenças ou infecções, ou então pessoas acima do peso estejam mais predispostas a receberem tratamento médico. Ou quem sabe as pessoas contadas como “normais” tenham perdido peso graças a uma doença séria.

     

    Qualquer que seja a razão, Flegal diz que suas descobertas não são sinal verde para comer todas as sobremesas. Pessoas acima do peso estão mais dispostas a desenvolver doenças que afetam a qualidade de vida. Mesmo assim, parece que as dobrinhas não são crime contra a saúde.

     

    MITO 05: PODEMOS E DEVEMOS DESINTOXICAR NOSSOS CORPOS
    Vivemos num mundo tóxico. Você está respirando chumbo enquanto lê este artigo. Em sua próxima refeição, encontrará de tudo — de venenos naturais até pesticidas e poluentes. Como não podia deixar de ser, o corpo humano é um depósito de substâncias químicas suspeitas. De acordo com a sabedoria popular, precisamos nos desintoxicar para nos livrar delas. Mas isso funciona mesmo?

     

    Para começo de conversa, nós nos desintoxicamos o tempo todo com a ajuda do fígado, dos rins e do sistema digestivo. Grande parte das substâncias tóxicas que consumimos é desintegrada ou excretada, ou ambas as coisas, num intervalo de algumas horas.

     

    No entanto, pode levar semanas, meses ou anos para nos livrarmos de algumas delas, principalmente as solúveis em gordura, como dioxinas e PCBs. Se consumirmos essas substâncias mais rápido do que nosso organismo pode se livrar delas, os níveis em nossos corpos podem aumentar.

     

    Programas de desintoxicação defendem um período de consumo de apenas líquidos, sem ingestão de sólidos, mas isso não faz diferença em relação aos níveis de substâncias químicas que se acumulam ao longo dos anos. “Leva de seis a dez anos de exposição zero para reduzir pela metade o acúmulo dessas substâncias em nossos tecidos de gordura”, diz Andreas Kortenkamp, toxicologista da BrunelUniversity em Londres.

     

    Além do mais, fazer dieta ou jejum libera substâncias químicas solúveis em gordura na corrente sanguínea em vez de eliminá-las do corpo. Um estudo publicado na revista ObesitySurgery revelou que o nível de organoclorinos e pesticidas no sangue subiu de 25 a 50% depois de perda rápida de peso.

     

    Esse fluxo repentino de substâncias químicas pode causar problemas, segundo Margaret Sears, pesquisadora de saúde ambiental no Instituto de Pesquisa CHEO em Ottawa, Canadá. “Elas agem como desreguladores endócrinos que afetam os níveis de energia e o apetite”, diz. Além disso, não existe garantia de que as substâncias liberadas da gordura vão de fato sair do seu corpo — muitas voltam para o estoque. Sears recomenda a “desintoxicação ao longo da vida”: comer da forma mais saudável possível, evitando ao máximo substâncias químicas em casa e no trabalho.

     

    MITO 06: DEVEMOS VIVER COMO OS HOMENS DAS CAVERNAS
    Nossos corpos não evoluíram para deitar no sofá e assistir TV comendo salgadinho. Eles evoluíram para corrermos por aí caçando e colhendo frutas e vegetais. Assim, de acordo com o mito, seríamos mais saudáveis se vivêssemos como nossos ancestrais.

     

    Esta hipótese surgiu em 1985 pelo médico S. Boyd Eaton e pelo antropólogo Melvin Konner, ambos da EmoryUniversity, em Atlanta, Georgia. Eles afirmam que, enquanto nossos genes não se modificam há mais de 50 mil anos, nossa dieta e estilo de vida mudaram drasticamente desde o advento da agricultura, há 10 mil anos.

     

    Nos últimos anos, a dieta da Idade da Pedra ou “paleo”, baseada nessas ideias, se tornou popular. Ela consiste em comer carne, frutas e vegetais, evitando grãos, laticínios, óleos, açúcares e sal. Além de muitos exercícios, claro.

     

    Mas a ideia de que houve ponto ideal na evolução há 50 mil anos não é verdadeira, diz Marlene Zuk, bióloga da Universidade de Minnesota em Saint Paul. Nossos ancestrais não eram perfeitamente adaptados. Também não sabemos ao certo do que se alimentavam. Por certo, não comiam algo como as plantas e os animais de hoje, transformados pela reprodução seletiva.

     

    O fato é que não fica claro se os caçadores-coletores eram tão saudáveis. Afinal, no processo evolucionário, não importa se morremos depois de criarmos nossos filhos e netos.

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